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14 de setembro de 2014

Poema "Hombre de America"


Eu, a aluna Mariana Fraga,  tive a honra de recitar “Hombre de America” do Nilton Rosa da Silva no "Brasil Agradece Ao Chile III"

Só a experiência de recitar um poema em Espanhol já foi algo, e sendo do Nilton, tive uma grande responsabilidade! Tive uma grande ajuda em ensaios da professora de espanhol Cláudia Sanchez e  do professor de Teatro Vinicius Lopes. Sem contar o apoio do grupo!!!  Valeu galera!!!

Deixo com você, querido leitor, o poema:

HOMBRE DE AMÉRICA

SUBI AL ALTO MAR IMPREGNADO DE MONTAÑAS
Y MI GRITO DE HIZO MAS FUERTE
QUE EL GRUÑIR DE LOS PÁJAROS
AMARILOS DE LA NOCHE

HOY ASALTO AL ESPACIO
CON UMA PEQUEÑA CÁPSULA DE METAL
Y DOY  PASOS LENTOS HACIA EL INFINITO
SIN MORDAZAS QUE RESQUEBRAJEN
EL DOLOR INTENSO DE LA VIDA MUERTA

HACE UNO, DOS O MASS DIAS NACI
CONTINÚO DESAFIANDO LOS DIOSES
Y LAS TEMPESTADES
PERPETUANDO LA  MISERIA DEL DOMINIO
MAGNÁNIMO DEL ESPÁCIO INFINITO 
Y MI VOZ CONTINÚA SUABE Y TRISTE
COMO LA VOZ DE LOS HOMBRES

CUÁNDO SE MATA UM TIRANO...
!AH! QUÉ ALEGRIA EN LOS OJOS DEL MI PUEBO
!AH! QUÉ LEGRIA EN LOS OJOS DE MI PUEBO
SY HOY AJUSTICIARON AL TIRANO

SE PUDIESSE, PASARIA UMA AGUJA POR TODO MI CUERPO
QUIZÁS ASI, PURIFICARIA MI ALMA

Brasil Agradece ao Chile

Fotografia: Tatiana Xavier.

Na última quinta-feira, 11 de setembro, tivemos a oportunidade de receber na escola a terceira edição do evento Brasil Agradece ao Chile, promovido pelo Comitê Carlos de Ré da Memória, Verdade e Justiça. Este evento tem por objetivo resgatar a história do golpe militar chileno, a cooperação entre os governos militares na repressão, e as memórias da luta contra as ditaduras da América Latina. É também um agradecimento dos brasileiros e brasileiras exilados, pela acolhida que tiveram no Chile até 1973, quando ocorreu o golpe naquele país.
 
A primeira edição do Brasil Agradece ao Chile foi realizada em Porto Alegre, em 2012, no Sindbancários, com palestras, oficinas, cine debates, sarau e mostra fotográfica. A segunda edição, realizada em 2013, quando se completaram 40 anos do golpe chileno, foi realizada no Chile, resgatando as memórias de exílio através de atividades culturais, protestos simbólicos, homenagens e visitações a locais emblemáticos para as ditaduras brasileira e chilena.
 
Agora, tivemos a honra de receber a terceira edição no Julinho, escola em que estudaram vários dos militantes exilados que viveram no Chile, a exemplo de Carlos Beust, Dirceu Messias, Nilton Rosa e Jorge Basso (os dois últimos assassinados durante o período da ditadura civil-militar, Nilton no Chile e Jorge na Argentina). A realização desta atividade na escola foi proposta ao grupo do nosso projeto pelos representantes do Comitê Carlos de Ré, Raul Ellwanger, músico que esteve exilado no Chile entre o final de 1970 e 1973, e Thiago.
 
À esquerda, Dirceu Messias, e à direita Raul Ellwanger.
Fotografia: Tatiana Xavier.


Durante a manhã foram expostos banners produzidos pelo Comitê Carlos de Ré. Na abertura, as alunas Mariana Fraga e Maria Camila fizeram a leitura de dois poemas, de autoria dos ex-alunos Luiz Eurico Lisboa e Nilton Rosa. A professora Helena Mesquita falou em nome da direção da escola e Raul Ellwanger em nome do Comitê.

Foi exibida uma apresentação de slides intitulada O Julinho e Seus Simpáticos Subversivos, produzida por membros do Comitê, e o documentário curta-metragem Exilados, do diretor Boca Migotto, que tem como personagem o ex-aluno Carlos Beust. Na última parte, Raul Ellwanger e Dirceu Messias deram depoimentos, e Raul fez o encerramento tocando a canção Eu Só Peço a Deus.
 
Fotografia: Tatiana Xavier.

Nos próximos dias publicaremos outros textos com mais detalhes sobre as atividades do evento e sobre os participantes. As fotografias publicadas aqui foram feitas por Tatiana Xavier, historiadora e ativista participante do Comitê Carlos de Ré e da Anistia Internacional.

Agradecemos a todos os membros do Comitê, e aos professores, funcionários e alunos da escola que se envolveram contribuindo de alguma forma com a organização, bem como à direção, pelo esforço que fizeram para garantir que o evento ocorresse.

15 de julho de 2014

Desapropriação do Dopinha

O projeto de lei que autoriza a liberação de verba para a desapropriação do terreno que abriga o antigo Dopinha, local utilizado entre 1966 e 1971 como centro clandestino de detenção e tortura, situado no n. 600 da rua Santo Antônio, deve ser encaminhado pela prefeitura à Câmara Municipal em três semanas.
O projeto inclui autorização para compra do terreno, isenção de pagamento de IPTU, e vinculação da aquisição à finalidade de uso do imóvel para abrigar o Centro de Memória Ico Lisboa. A desapropriação do imóvel é reivindicada pelo Comitê Carlos de Ré da Memória, Verdade e Justiça, que será responsável pela criação do memorial, cujo nome homenageia Luiz Eurico Tejera Lisboa.


Expectativa é que texto chegue à Câmara da Capital em três semanas
Lívia Araújo

Dentro de três semanas, a prefeitura de Porto Alegre deve encaminhar à Câmara Municipal um projeto de lei que autoriza a liberação de verba para a desapropriação do terreno que abriga o antigo Dopinha, no número 600 da rua Santo Antônio, em Porto Alegre, e que, entre 1966 e 1971, abrigou um local clandestino de prisão, tortura e morte de militantes perseguidos pela ditadura militar. A informação é do integrante do Comitê Carlos de Ré da Verdade, Memória e Justiça, vereador Pedro Ruas (P-Sol), que esteve reunido, na semana passada, com o prefeito José Fortunati (PDT) e o secretário municipal da Fazenda, Roberto Bertoncini.
De acordo com a coordenadora-geral do comitê, Christine Rondon, no projeto constam a autorização para a compra do terreno, a isenção do pagamento do IPTU e a vinculação da aquisição à finalidade de uso posterior do imóvel, que abrigará o Centro de Memória Ico Lisboa, destinado a ser um espaço para lembrar a resistência ao regime. Na reunião, o Executivo municipal apontou a necessidade de desmembramento da avaliação do terreno e do imóvel e suas benfeitorias. O Executivo estadual arcará com o pagamento da casa e benfeitorias. De acordo com a Casa Civil, o governo do Estado aguarda o retorno da prefeitura sobre os documentos enviados para inclusão no projeto. Conforme a Secretaria Municipal da Fazenda (SMF), a avaliação do imóvel feita pelo governo do Estado é de R$ 2,15 milhões – por essa estimativa, o valor do terreno não foi separado do das benfeitorias. Por isso, o imóvel passará por nova avaliação, a cargo da Unidade de Avaliação de Imóveis da SMF, para separar os dois valores. Isso é necessário porque há uma definição de que a desapropriação ocorra por Transferência de Potencial Construtivo (TPC), também conhecida como índice construtivo, que só pode ser utilizada na desapropriação do terreno. O valor das benfeitorias seria pago pelo Estado, e a diferença entre os 50% que cabem a cada uma das esferas, estadual e municipal, seria compensada por meio de convênio.
A desapropriação do casarão é reivindicada pelo comitê, que será também o responsável pela criação do memorial. O nome homenageia o militante político Luiz Eurico Tejera Lisboa, desaparecido em 1972, cujo corpo foi o primeiro a ser encontrado, em 1979, no cemitério clandestino de Perus, no estado de São Paulo, onde os militares depositavam os corpos de cidadãos torturados e mortos pela ditadura.
Ruas acredita que o projeto de lei seja aprovado sem contratempos, por se tratar de lei do Executivo e também por ser apoiado pela bancada de oposição. Segundo Ruas, após a desapropriação, o comitê terá condições de ocupar imediatamente o imóvel e realizar atividades culturais e palestras, além de abrigar documentos da época do regime militar. “Nossa urgência leva em conta que o Dopinha é o primeiro centro de sequestro, tortura e morte da América Latina concebido para essa finalidade. Por isso, qualifica-se para ser um sítio de memória de referência internacional”, destaca.
Atualmente, segundo a coordenadora-geral, o espaço já é aberto a atividades, como o evento que marcou o lançamento do Centro de Memória, em dezembro de 2013, pois a própria família proprietária é favorável à venda do imóvel.  O comitê está retomando o contato com o governo federal, através do Ministério dos Direitos Humanos, para negociar os custos das reformas e adequações necessárias no casarão. “Também temos possibilidade de buscar essa verba em parceria com outras secretarias e instituições”, afirma Christine.
O imóvel foi alugado clandestinamente pelo Exército em 1964, dificultando, por exemplo, a expedição de habeas corpus e tomada de depoimentos, já que não havia entrada oficial de prisioneiros no local. Um dos torturados e mortos no casarão foi o sargento Manoel Raimundo Soares, que, depois de morto, teve seu corpo atirado no Rio Jacuí. Apesar de ter as mãos amarradas, o laudo emitido pelas autoridades da época apontava que a causa da morte era suicídio. O episódio ficou conhecido como Caso das Mãos Amarradas.

12 de abril de 2014

Barnabé Medeiros Filho

Fotografia: Mariana Fraga

No painel A Luta Juliana na Ditadura, realizado na manhã do dia 31 de março, no auditório Luiz Eurico Tejera Lisbôa, um dos convidados foi o ex-aluno Barnabé Medeiros Filho. Nascido em Tubarão (SC), Medeiros veio para Porto Alegre ainda criança. Cursou o antigo ginásio no Inácio Montanha, e em seguida o curso científico no Julinho, entre 1964 e 1966.

No Julinho, Medeiros começou a participar do Grêmio Estudantil em 1965, no cargo de juiz. Na época, o Grêmio Estudantil se organizava em um sistema parlamentarista, com uma estrutura de três poderes. O judiciário do grêmio era composto por juízes eleitos nas turmas de 2º ano. Mais tarde foi também representante de turma.

Ainda no Julinho filiou-se ao Partido Operário Revolucionário-Trotskista (POR-T) e após concluir o científico passou a dedicar-se mais à militância, além de começar a trabalhar como bancário e a participar do sindicato da categoria. Mudou-se para São Paulo, onde passou a ser responsável pela edição do jornal do partido. Em 1972 foi preso no DOI-CODI paulista, onde foi torturado. Ficou preso por mais de um ano, e após a libertação começou a trabalhar como jornalista, profissão que exerceu até recentemente.

Atualmente reside em São Paulo e é escritor, com quatro livros publicados. Em fevereiro lançou o livro 1964 - O golpe que marcou a ferro uma geração.

6 de março de 2014

Laerte Meliga

O livro Direito à Memória e à Verdade: Histórias de meninos e meninas marcados pela ditadura [link para o arquivo em PDF], publicado em 2009 pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, traz histórias de adolescentes ativistas políticos, além de crianças e adolescentes que sofreram com a ditadura apenas pela opção política de seus pais. Entre os casos descritos está o de Laerte Meliga, que militou no movimento estudantil do Julinho, fez parte do grupo dos "Brancaleones", juntamente com Ico Lisboa e Cláudio Gutierrez, entrou para a luta armada e foi preso e torturado. Reproduzimos aqui o trecho que fala sobre ele.

Brancaleone adolescente

"Laerte Meliga se declarou socialista aos 13 anos e aos 14, junto com um grupo de amigos, rompeu com o Partido Comunista. Os garotos atrevidos foram apelidados Brancaleones, em alusão ao filme de Mario Monicelli, O Incrível Exército de Brancaleone, uma paródia satírica de Dom Quixote de La Mancha, que retrata a decadência do sistema feudal e a capacidade humana de enfrentar perigos gigantescos para defender sonhos. Por conta de sua militância, aos 17 foi parar na Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem), na ala dos adolescentes infratores, onde o trataram com o maior respeito. Clandestino antes de atingir a maioridade, acabou detido novamente pouco tempo depois. Com 18 anos, recém-feitos, passou por sessões de tortura e amargou três anos e nove meses de cárcere. 'Lá eu aprendi muitas coisas, inclusive a escrever certo', diz ele, hoje jornalista e subsecretário de Planejamento, Orçamento e administração do Ministério do Planejamento.
Seu interesse pelas escaramuças políticas do país vem de longe. Filho de uma família de petebistas, ainda criança acompanhou de perto o Movimento da Legalidade, quando o então governador gaúcho Leonel Brizola sublevou o Rio Grande do Sul para garantir a posse do presidente João Goulart. Precoce, aos 11 entrou de corpo e alma no movimento estudantil do Colégio Júlio de Castilho, um dos QGs da resistência juvenil à ditadura em Porto Alegre. Daí para frente sua vida foi norteada pelas passeatas, protestos, congressos. 'Eu me criei em uma vila e ao meu redor só via injustiça, por isso tomei consciência da necessidade de mudar', explica.
Com 16 anos, Laerte lia Sartre (Jean Paul Sartre, escritor e filósofo francês) e o compêndio de livros proibidos pela repressão. Sua mãe – assombrada pelo perigo que as leituras do filho representavam – um dia ameaçou jogar uma das obras comprometedoras na parede. O filho não deixou por menos: pegou um prato de porcelana antigo de estimação e avisou: 'Se jogar o livro, eu jogo o prato'. Ela jogou e ele também.
Como as atividades da militância o absorviam por inteiro, Laerte deixou o colégio Julinho na terceira série por excesso de faltas. Ainda tentou completar o ginásio na Escola Técnica Parobé, mas não concluiu. Antes disso, com apenas 17 anos e virgem, entrou para a clandestinidade. 'Transei pela primeira vez um mês antes de ser preso. Quase que entro virgem para a cadeia', recorda, divertido e preocupado.
À parte deste breve romance, a clandestinidade foi um período difícil, vivido em São Paulo. Começavam os anos 70 – o período mais duro da ditadura – e o movimento Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), ao qual havia se vinculado, estava sendo dizimado. Daquela época, lembra das pensões infestadas de pulgas, da expectativa para entrar em ação e dos pesadelos da primeira noite em São Paulo, no dia 31 de março de 1970: 'Eu tinha a sensação de não ter pernas ou de que as pernas viravam gravetos'. Ele também se questionava a respeito dos rumos da luta que, no seu entender, estava entrando em um círculo vicioso voltada apenas para a própria sobrevivência.
Em fevereiro de 1971, Laerte voltou a Porto Alegre para manter contato com um companheiro de militância. Esperava por ele na avenida São Pedro quando recebeu ordem de prisão. Foi levado ao DOPS gaúcho com um capuz na cabeça. Quando pressentiu a presença de outros presos políticos, gritou alto o seu nome e foi coberto de pancadas. 'Eu estava tão quente que nem senti'. A dor veio com o pau-de-arara e o eletrochoque.
Laerte foi transferido para São Paulo em um avião comum da Varig. Os agentes colocaram uma roupa sobre as algemas para não denunciar sua condição aos passageiros. Também não o deixaram comer, porque voltaria a ser torturado no DOPS paulista, onde foi direto para o pau-de-arara. Nos quase quatro anos seguintes, entre São Paulo e o Rio Grande do Sul, passou pelo DOI-CODI, o quartel Serraria, o DOPS novamente, o presídio Tiradentes, a Casa de Detenção e a Penitenciária do Estado de São Paulo, além do Hospital Penitenciário, para onde foi levado após 32 dias de greve de fome.
Com 1m75cm de altura e habituais 68 quilos, ao final estava com 54 quilos.
Em quase todas as celas onde esteve, a maioria dos presos era jovem. 'Depois que passou a tortura, foi um período muito bom de aprendizado, apesar de tudo', garante.
Encarcerado, estudou de verdade pela primeira vez, norteado por uma espécie de curso sem mestre encadernado. Durante longo tempo, escreveu uma carta para a família todas as noites. Estas cartas eram corrigidas por seu companheiro da cela ao lado Reinaldo Morano Filho, na época já advogado e estudante de Medicina. Laerte passava os textos a limpo, mas nem sempre os enviava. Ele guarda os três cadernos de rascunhos até hoje. Entretanto nem cogita usá-los como fonte para escrever um livro de memórias ou algo do gênero. 'Quem tinha que escrever, já escreveu', opina.
Entre as lembranças da prisão, está a camaradagem, a solidariedade e a autogestão da rotina carcerária. O tempo era todo planejado: hora da leitura, hora da ginástica e hora do trabalho, no caso a produção de artesanato em couro: 'A gente fazia bolsa, pulseira, cinto, sandália e as famílias vendiam'. Os parentes também eram responsáveis por fornecer a matéria-prima e as ferramentas.
A privação da liberdade foi compensada pela consciência da necessidade da luta e o orgulho de participar dela, garante Laerte, que saiu da prisão sem emprego, atrasado nos estudos regulares, mas com experiência redobrada. Estava 'cheio de gás'. Logo conseguiu emprego, entrou no supletivo e, em seguida, na faculdade. Sem nunca deixar de militar. Sério por natureza, encontrou uma frase bem-humorada para definir os quase quatro anos de cadeia: 'Perdi Saramandaia, mas em compensação li Cem Anos de Solidão. Em espanhol'."

25 de fevereiro de 2014

Visita ao Arquivo Público


Após o período de férias, retomando as pesquisas sobre os ex-alunos e professores envolvidos na luta contra a ditadura, no dia 19 de Fevereiro, eu e o professor Sérgio tivemos acesso aos processos de indenização aos torturados na Ditadura Militar, que estão no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Vimos os dos ex-alunos Luís Eurico Tejera Lisbôa, Carlos de Ré, Cláudio Gutierrez e do professor Décio Nunes Floriano. Pretendemos, ao longo do ano, voltar e analisar outros como os dos militantes Martinha (Ignez Maria Serpa Ramminger) e Losada (Antônio Losada).

15 de novembro de 2013

Painel sobre Movimento Estudantil e Ditadura.

Raul Ellwanger, Bárbara Nunes, Maria Camila, Sérgio Ozório,
Mariana Fraga, Ignez Serpa, Cláudio Gutierrez, e Calino Pacheco.

No dia 9 de novembro foi realizado na escola o 2º Painel Direitos Humanos, Movimento Estudantil e Comissão da Verdade. As atividades ocorreram durante o sábado letivo dedicado às ciências humanas, e contou com a participação de outros professores da área e alunos, que tiveram oportunidade de ter contato com o trabalho desenvolvido pelo grupo do projeto.

A programação teve início com a apresentação da peça teatral Anos de Chumbo no Julinho - As Condições Ideais Para o Amor, montada pelo grupo do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) do teatro, coordenado pelo bolsista Hérlon, estudante da UFRGS, e supervisionado pelo professor Vinícius, professor de teatro da escola. A peça homenageia o ex-aluno Luiz Eurico Tejera Lisboa, e é baseada no livro Condições Ideais Para o Amor, que reúne seus poemas e cartas à sua esposa Suzana Lisboa, também ex-aluna da escola.

Em seguida os alunos Mariana Guimarães de Fraga, Maria Camila e Lucas Wilhelm Lopes da Silva apresentaram informações sobre as vidas de Nilton Rosa da Silva, Luiz Eurico Tejera Lisboa e Jorge Alberto Basso, ex-alunos julianos que foram mortos na luta contra as ditaduras do Cone Sul, e desde 2003 são homenageados através de um quadro situado no saguão da escola.

Na terceira parte da programação, deram depoimentos os convidados Cláudio Antônio Weyne Gutierrez, Calino Pacheco Filho, Ignez Maria Serpa Ramminger, e Raul Ellwanger, todos atuantes na luta contra a ditadura, tanto no movimento estudantil como na luta clandestina, em diferentes grupos como o POC, VAR-Palmares e VPR, entre outras.
Calino faz parte do Comitê Popular Memória, Verdade e Justiça. Gutierrez é autor do livro A Guerrilha Brancaleone, uma das obras que serve de base bibliográfica para o nosso projeto. Ambos já haviam participado do 1º painel, em novembro de 2012, e já colaboraram com o projeto concedendo entrevistas.
Ignez Serpa, com quem tivemos o primeiro contato, falou sobre sua militância política e suas ideias, e se disponibilizou a colaborar na pesquisa desenvolvida pela aluna Mariana. O músico Raul Elwanger, que atua no Comitê Carlos de Ré, além de falar sobre sua experiência na militância no Brasil e o exílio no Chile, tocou algumas músicas de seu repertório.

Os professores e alunos do projeto Direitos Humanos, Movimento Estudantil no Julinho e Comissão da Verdade agradecem aos convidados, e também ao grupo do PIBID do teatro, pela sua participação nesta atividade.
Agradecemos também à direção da escola que nos deu apoio e condições para a realização do evento, e ao colega professor Cláudio Vogt Jr que fez o registro em vídeo.
Por fim agradecemos ainda a todos os colegas professores e aos alunos que se integraram neste sábado letivo.

14 de setembro de 2013

O funeral de Nilton Rosa

Esta semana, no dia 11 de setembro, completaram-se 40 anos do golpe militar ocorrido no Chile, que derrubou o governo democraticamente eleito de Salvador Allende, dando início à sangrenta ditadura de 17 anos do general Pinochet. A morte de Nilton Rosa, ex-aluno do Julinho e militante do MIR, está intimamente ligada a este golpe militar. Nilton foi assassinado três meses antes, por membros da ultradireita golpista, quando participava de uma manifestação de apoio ao governo de Allende.


A fotógrafa norte-americana Amy Conger estava vivendo no Chile, onde lecionava na Universidade, quando Nilton Rosa foi assassinado, no dia 15 de junho de 1973. Dois dias depois ela acompanhou o funeral e, por ter contatos entre os militantes da esquerda chilena, foi autorizada a fotografar o cortejo, que contou com a presença de cerca de cem mil pessoas. Após o golpe de 11 de setembro que colocou o general Pinochet no poder, pelo temor de ter suas fotos apreendidas e utilizadas para identificar os militantes da esquerda, Amy destruiu as fotografias reveladas e enviou os negativos para seu país natal. Em 2010 ela publicou o livro Nilton da Silva Rosa: June 17, Santiago. "We Don't Forget the Color of Blood". As fotografias mostram um panorama dos movimentos de esquerda da América Latina e da comoção causada pelo assassinato de Nilton. O nome completo de Nilton (Nilton Rosa da Silva) encontra-se invertido no título do livro por uma confusão, pois na língua espanhola o sobrenome paterno costuma ser o segundo nome, antecedendo o materno. 

* Nilton da Silva Rosa: June 17, Santiago. "We Don't Forget the Color of Blood". Amy Conger. Nolvido Press, 2010 (link para adquirir o livro, é possível visualizar todo o livro no site). 

Sobre Nilton, a autora escreveu:
Nilton, um líder marxista do sul do Brasil, precisou entrar na clandestinidade. Ele deixou seu país em 1971 como milhares de outros. O hino chileno descreve o Chile como "un asilo contra la opresión". Ele ingressou no Departamento de Literatura Espanhola da Universidade do Chile.
Ele era conhecido como um falador incessante, um galanteador incansável, um trovador com o violão, um marxista internacional, um líder natural e um poeta. Seus companheiros de curso, seus colegas de faculdade, o amavam.
Ele também sabia o que havia ocorrido e estava ocorrendo no Brasil então, e contava a seus companheiros, em detalhes, em technicolor, sobre tortura, desaparecimentos e assassinatos. Ele havia estado lá, participado. Como uma multidão de chilenos, eles acreditavam que isto nunca poderia acontecer no Chile pois, eles explicaram, eles tinham a mais longa tradição democrática de qualquer país na América Latina. (Quantas vezes eu ouvi isso?) Ele costumava responder: Que es libertade?


As ruas pertenciam a Nilton naquela manhã. As calçadas estavam lotadas. Eu nunca imaginei que houvesse tantos apoiadores da UP [Unidad Popular, coligação pela qual Allende fora eleito] em Santiago dispostos a caminhar 10 km até o Cemitério Geral. Ali estavam de fato milhares de bandeiras e coroas de flores de todos os partidos de esquerda da América Latina, incluindo aqueles que sequer tinham a aprovação do MIR.
Para mim, as cenas mais memoráveis foram os estudantes com bandeiras erguidas no teto da Escola de Medicina gritando "Nilton da Silva?" e a multidão respondendo "Presente"; os estudantes em ambos os lados da rua baixando suas bandeiras quando o carro fúnebre de Nilton aproximava-se e passava; o Comitê Político do MIR totalmente exposto a um ataque cirúrgico dos fascistas, encabeçando a marcha dos enlutados; e as milhares de pessoas erguendo seus pulsos, subindo na columbaria, cantando a Internacional, enquanto o caixão é colocado em seu nicho.
As pessoas pareciam compreender que aquela seria a última grande manifestação da esquerda. Nilton representou seus objetivos e não apenas aqueles do povo chileno mas das pessoas anti-imperialistas e militantes ao redor do mundo que estavam tentando distribuir riqueza através dos meios democráticos.

Outro livro de Amy Conger resultado de sua estada no Chile entre 1972 e 1973 é Bienvenido to Nueva Havana: Santiago, Chile 1972-1973. Este livro reúne imagens da vila Nueva Havana, em Santiago, uma experiência de comunidade autogestionária iniciada em 1970, que sofreu intervenção dos militares após o golpe. Também estas fotografias foram escondidas e só foram publicadas recentemente pelo risco de serem utilizadas pela repressão da ditadura de Pinochet na identificação de apoiadores do governo de Allende.

Fotografias e citações: Amy Conger.

4 de setembro de 2013

41 anos da morte de Luiz Eurico Lisbôa

Nesta semana se completaram 41 anos do assassinato de Luiz Eurico Tejera Lisbôa, ex-aluno do Julinho. Luiz Eurico foi expulso da escola pela sua militância estudantil, preso e fichado no DOPS pela tentativa de reabrir o Grêmio Estudantil da escola, atuou na direção da UGES e entrou para a luta armada, integrando a VAR-Palmares e a ALN. Foi assassinado pela repressão em São Paulo em 1972 e sepultado com nome falso no cemitério de Perus, em São Paulo. A versão oficial era de suicídio. Seus restos mortais foram identificados em 1979, após uma longa busca de sua esposa Suzana Lisboa, também ex-aluna do Julinho. Este ano, uma perícia nas fotografias e no laudo desmentiu a tese do suicídio.

Trecho de uma carta de Luiz Eurico à Suzana, publicada no livro Condições Ideais Para o Amor:
Fiquei com pena de todos eles, Suzana. Dos que mentem, dos que invejam, dos empertigados, dos ambiciosos, dos que fazem do amor um remédio, um passatempo, um negócio, um paliativo. E percebi quão poucos entre nós chegaram ao sentimento final do combate que travamos. Eles não compreendem, Suzana, que nós somos um momento na luta que o Homem vem enfrentando através da História, cada vez mais conscientemente, pela felicidade. Não entendem que nós buscamos, em última análise, as condições ideais para o amor. Tanto no plano coletivo, como individual. E acabam negando, no dia-a-dia, como eu neguei até te conhecer, o objetivo que aparentaram querer atingir.

Leia matéria publicada nesta segunda-feira no site Sul21 sobre Luiz Eurico.

* A revolução que está por vir: 41 anos sem Luiz Eurico Tejera Lisbôa (link para a matéria no Sul21).

18 de agosto de 2013

Semana Temática Nilton Rosa (1)

Ontem estivemos em Cachoeira do Sul, participando da Semana Temática Nilton Rosa. Este evento cultural, que homenageou o ex-estudante juliano e militante do MIR natural desta cidade, ocorreu entre os dias 12 e 17 deste mês, e foi promovido pelo Levante Popular da Juventude e pelo Grêmio Estudantil do Instituto João Neves da Fontoura, com o apoio da Prefeitura Municipal de Cachoeira do Sul.

Luciana Canto, Coordenadora de Políticas Públicas de Juventude da Prefeitura Municipal de Cachoeira do Sul, esteve no Julinho em busca de informações sobre Nilton Rosa e, ao conhecer o projeto Direitos Humanos, Movimento Estudantil no Julinho e Comissão da Verdade, nos convidou para participar. Fomos muito bem recebidos e tivemos uma oportunidade única de estabelecer novos contatos, obter novas informações sobre Nilton para nossa pesquisa, e divulgar o nosso projeto. Estiveram presentes os professores Sérgio e Bárbara, e as alunas Mariana Fraga e Maria Camila.

Outro participante do evento foi Calino Pacheco, membro do Comitê Popular Memória Verdade e Justiça, amigo e companheiro de militância estudantil do Nilton, que já colaborou com nosso projeto em 2012.

* Confira aqui a programação desenvolvida no evento.

15 de junho de 2013

Documentário - Exilados


Neste sábado, 15 de junho, data da morte de Nilton Rosa, a rede RBS exibiu o documentário curta-metragem Exilados, na série Histórias Curtas. O vídeo, dirigido por Boca Migotto, mostra a viagem de Carlos Beust de Oliveira e seu filho Pedro, ao Chile.
No trajeto, Carlos, que era amigo de Nilton Rosa, com quem militou no MIR, relembra momentos do seu exílio e conta a história a Pedro, a quem só foi conhecer quando este já tinha 18 anos de idade.
Ambos visitam lugares como o Museu da Memória, que relembra os crimes da ditadura chilena, o Estádio Nacional, onde ficaram confinados os prisioneiros políticos, e a Universidade do Chile, onde há um jacarandá plantado em homenagem a Nilton Rosa.


40 anos da morte de Nilton Rosa da Silva



Hoje se completam 40 anos da morte de Nilton Rosa da Silva, ex-aluno do Julinho que foi morto no Chile, vítima das milícias de extrema direita. No Brasil sua morte não recebeu destaque por ser um militante exilado, mas no Chile Nilton recebeu homenagens, e seu sepultamento foi acompanhado por cerca de cem mil pessoas. Atualmente, diante do prédio em que ele estudava, na Universidade do Chile, há um jacarandá plantado em sua homenagem.
O site Sul 21 publicou hoje uma matéria em homenagem a Nilton Rosa.
* Nilton da Silva virou jacarandá: um brasileiro morto pela ultradireita no Chile (Link para o artigo no Sul21)

Nei Lisboa - O Futuro do Exterminador



O músico gaúcho Nei Lisboa é irmão de Luiz Eurico Tejera Lisboa, ex-aluno do Julinho assassinado pela repressão em setembro de 1972 em São Paulo.



O Futuro do Exterminador
(Nei Lisboa)

Quê? Não pode ser
Olha aquele cara ali falando na televisão
Quem? Não pode ser, não
Olha esse retrato, é o diabo
Candidato a bom cidadão
Hein? Não pode, não
Nem aqui agora, nem em outra encarnação
Eu digo, quem? Presta atenção
Esse torturava, esse era a mão do ditador
E agora vem, pede à nação
Pede de presente o futuro do exterminador
Eu digo não, pelo país
Pela honra, a terra, o céu civil do ano 2000
Eu digo, quem? Não pode, não
Esse limbo fede
E quer medalha, emprego, proteção
Mas nem num mundo cão
Veste-se de glória a História acorrentada num porão
Por cem, mais de um milhão
Por um só pecado, o teu papel passado é de vilão
Nem vem pedir perdão
Vai pedir pro Vlado
Estende, que ele puxa a tua mão

* Leia sobre Luiz Eurico Tejera Lisbôa aqui.